Ismael Lopes: o jornalista que virou ponte com a comunidade

Por Beatriz Jansen |

Em um país onde o microfone muitas vezes tem dono, garantir a voz ao povo não é apenas exercer a democracia, é também enfrentar os monopólios que concentram o poder de informar. Foi com essa visão que Ismael Lopes, jornalista e radialista desde os anos 80, caminhou para fundar a primeira rádio comunitária do Brasil.

Ismael Lopes é um dos pioneiros da comunicação comunitária no Brasil. Ele foi cofundador do Centro Radiofônico de Informação Alternativa do IBASE em 1989 e atuante também na política, foi vereador de Queimados e é militante do Partido dos Trabalhadores (PT). Atualmente, continua ativo politicamente, defendendo a democratização da comunicação e os direitos da comunidade.

Essa vontade de acabar com a hegemonia nos meios de comunicação ganhou mais força junto a outros jornalistas durante os debates presidenciais de 1989. Ao perceber a edição e transmissão enviesada da TV Globo e outras fortes mídias que favoreciam o candidato Collor, eles se uniram para desenvolver o Fórum Nacional pela Democratização da Comunicação (FNDC), um espaço de troca e resistência que buscava repensar os rumos da mídia no país. “Fizeram realmente uma fraude, por conta de eles serem absolutos no pedaço. Eles, na verdade, tinham o domínio total dos meios ", lembra Ismael. Nesse ambiente de inquietação coletiva, Ismael, juntamente com seu colega Tião Santos e outros comunicadores, começaram a idealizar um modelo de rádio comunitária, democrática e plural, o veículo pensava em um conceito aberto, livre para a população se informar e se expressar por meio dele.

Inspirado por uma revista política, Ismael deu nome à ideia: Novos Rumos, e também ganhou endereço: Queimados. Em processo de emancipação de Nova Iguaçu na época, que era a naturalidade dos jornalistas, se tornou o berço do novo veículo. No início de 1991, começaram as transmissões experimentais no porão da casa de Tião e o boca a boca popular fez o reconhecimento surgir.

Primeira transmissão da Rádio Novos Rumos, no subsolo da casa do Tião Santos (um dos idealizadores da Rádio). Ismael Lopes, segundo da esquerda para direita (sem camisa).
Primeira transmissão da Rádio Novos Rumos, no subsolo da casa do Tião Santos (um dos idealizadores da Rádio). Ismael Lopes, segundo da esquerda para direita (sem camisa).
Foto do acervo da rádio Novos Rumos

A formalização do nascimento da rádio aconteceu em 13 de abril daquele mesmo ano, em uma assembleia realizada em uma antiga escola pública que contou com participação e aprovação massiva dos envolvidos. Logo, o estatuto foi criado e serviria em anos posteriores como base para outras rádios comunitárias no país inteiro, além de influenciar a criação da lei 9.612 de 1998, que regulamentou esse tipo de emissora. “Foi um discurso muito bacana porque a cidade estava muito favorável a essa questão da emancipação, favoreceu muito o interesse das pessoas em debater como seria o novo município que estava nascendo, então estava muito acesa a chama política na cidade”, explica Ismael.

Segundo estúdio da Novos Rumos (1995) Ismael Lopes (centro da foto) com equipe de programadores e operadores de áudio, formada por jovens da comunidade.
Segundo estúdio da Novos Rumos (1995) Ismael Lopes (centro da foto) com equipe de programadores e operadores de áudio, formada por jovens da comunidade.

Mas nem tudo foi conquista. A lei aprovada pelo congresso limitava muitas questões essenciais para o funcionamento da rádio e, sem uma outorga que só seria aprovada anos depois, a Novos Rumos entrou em um período de grande luta pela sua permanência. Ismael e sua equipe continuaram as transmissões até serem interrompidos pela polícia, que levou o transmissor. “Nossa, foi uma luta. Fizemos várias manifestações, fomos várias vezes a Alerj, fomos a Brasília”, conta Ismael, na época buscando continuar com o trabalho plural e inclusivo que a Novos Rumos fazia. Apenas quatro anos depois do fechamento, em 13 de maio de 1995, a rádio voltou a funcionar legalmente. Durou dois anos até ser fechada novamente. Na tentativa de manter as transmissões, Ismael foi preso. Foi absolvido, mas a luta nunca parou. “Isso porque o juiz que pegou a causa compreendeu bastante as nossas argumentações, nós nos fundamentávamos no Tratado de São José da Costa Rica que, como tratado internacional que o Brasil tinha assinado, estava acima da Constituição, mesmo ela incluindo o direito à expressão e informação, ainda faltava o direito de comunicar”, relembra.

Ismael Lopes em congresso de Rádios Comunitárias em 1998.
Ismael Lopes, à direita (de camisa branca) durante o II Congresso de Rádios Comunitárias em 1998, em Teresina no Pia.

Hoje, a rádio encontra-se inativa. O cenário tecnológico mudou, e com ele, a forma de se comunicar. As redes sociais ocuparam o espaço que um dia foi das transmissões comunitárias. “Quando chegou essa nova tecnologia, a rádio perdeu muito sentido porque, nas redes sociais, essa forma fácil das pessoas se comunicarem, essa comunicação interpessoal acabou. E com ela, o investimento no veículo e na publicidade, que passou a ser voltado para as redes sociais, acabando com o nosso apoio cultural e financeiro para arcar com os custos da rádio”, explica Ismael e completa: “A rádio era um espaço de afetividade. O cara ligava pra homenagear o amigo que estava fazendo aniversário, tudo que hoje o Facebook faz, nós fazíamos na época com rádio”. Para o futuro, existe a possibilidade da Novos Rumos se manter como ONG, mas é algo ainda incerto.

Ismael, no fundo do quadro à esquerda, com a equipe atual da Rádio Novos Rumos.
Ismael, no fundo do quadro à esquerda, com a equipe atual da Rádio Novos Rumos.